Desconcertos de Poesia

 

Não se esqueçam da poesia

Será amanhã (quinta) no Patuscada a nossa sessão Desconcertos organizada pelo Claudinei Vieira. Estão todos convidados.

IMAGENS SONHADAS
(feito a partir de um sonho)
.
a flor na orelha oriental
onde não voam as abelhas
apenas a primavera
mulheres atiradas como buquês
orquídeas brancas
dentes brancos rindo à toa
até que tudo se misturou
em algo que aconteceria
quando acordei da cena cinematográfica
.
abri-me como quem brota
uma cerejeira de mentira
perfume de plástico
ocidente onde havia um Japão Imperial
porque o sol bateu na janela
no acidente cósmico da vigília
.
era uma terça-feira
ainda haveria você
falando de Baudelaire naquele dia
como quem serve no almoço
o sonho das flores do mal

.
(Célia Musilli)

 

 

patuscada poesia

Impressões quase completas

capa A verdadeira História do século 20  - Claudio Willer

 

Na revista Germina deste mês há uma resenha sobre o novo livro de poesia de Claudio Willer que foi lançado em Portugal pela Apenas Livros, além de uma entrevista que fiz com o poeta.

Segue a resenha:

http://www.germinaliteratura.com.br/2016/livros_impressoes_por_celia_musilli.htm

 

Impressões quase completas 

Li a A verdadeira história do século 20 quando ainda era inédito. Ele traz também a respiração de um livro invisível e se abre para o que é visível em nosso tempo: afetos e angústias, nas imagens que se sucedem nos cinemas e nos poemas, eclodindo em nossas cabeças como um chamado também ao filme interno. O poeta diz: “cinema, seu verdadeiro nome é confissão” e nossas impressões se ampliam. Não estamos sozinhos na sala, as vozes se somam, como se Reichenbach, Hitchcock e Bergman fossem interlocutores nos ensinando a ver os símbolos de perto, com o devido respeito também ao que não se revela.

Fazer poemas sobre filmes é como um relato de sonhos, psicanálise delicada. O poeta faz seu filme sobre os filmes, das imagens à sintaxe, ganha a poesia. E nosso olhar se derrete, como “montanhas de manteiga ao sol.”

Depois ainda há um salto para dentro de emoções singulares. Entram o poeta surrealista e o poeta beat. O primeiro trançando cabelos e pensamentos sobre as cidades, poeta urbano dos monumentos sentimentais construídos com as musas, tantas, como num passeio de mãos dadas com uma galeria feminina. Nenhuma tem nome, todas são poesia, o tempo é subvertido, não há passado nem futuro, tudo corre num presente inapreensível, um tempo líquido, mobilidade sôfrega ainda com linguagem de cinema. Mas é a vida que passa, em cenas surreais sem o crocodilo de Pierre Schöller porque não há propriamente angústia. O exercício é lírico, de uma liberdade surpreendente, com a beleza acachapante dos colírios de palavras.

Vem o poeta beat, celebra o sexo e as orgias silábicas, a transgressão pelo corpo e pelo verbo, a construção de um mundo novo que ficou nos parques e nas praias, nos acampamentos onde havia tempo para o pôr-do-sol e o levantar da lua. Poetas leviatãs do risco, magos da ousadia estética misturada à vida, experimentalismo na própria pele.

Poema depoimento, poema testemunha, poema como a respiração que buscamos de olhos fechados para abrir as portas da percepção. Sobretudo, a síntese de um grande caleidoscópio de palavras, eis a minha impressão.

O poeta agradece ao diretor de Persona por lhe dar a chance de criar o “mais hermético dos seus poemas.” Eu agradeço ao poeta por não decifrá-lo inteiramente. A arte sempre terá sentidos obscuros.   (Célia Musilli)

SERVIÇO: A Verdadeira História do Século 20, de Claudio Willer. Apenas Livros, coleção Cadernos Surrealistas Sempre –  Lisboa/Portugal. Encomendas: apenaslivros2@gmail.com

 

 

O Brasil precisa de Psicanálise

perfect freud

Segue meu artigo deste domingo na Folha de Londrina, reflexões sobre o momento político e psicológico do Brasil:

http://www.folhaweb.com.br/?id_folha=2-1–79-20160403

 

O Brasil precisa de psicanálise 

Neuroticamente, o país está repetindo comportamentos que atrofiam pensamentos e saídas

Em 1929, ao escrever o ensaio O Mal Estar da Cultura, Freud já alertava que os sintomas sociais são históricos e mudam com o tempo. No meio da crise política brasileira, noto que entre os sintomas existe um modo recorrente de uns jogarem pedras nos outros, mais preocupados em praticar a teimosia e estabelecer “quem tem razão” do que propriamente encontrar saídas.

Corremos o risco de, ao fim da crise, sentirmos um vazio por não sabermos mais o que fazer com as pedras que levamos não só no bolso como no coração. A contrariedade hoje é um estado de alma dos brasileiros, tem a ver não só com a realidade mas também com as fantasias ideológicas que nos dizem respeito a partir do que entendemos por esquerda ou direita, ainda que esses campos, na prática, se confundam cada vez mais.  Lideranças políticas – se é que assim podemos chamá-las – pulam constantemente de um partido a outro, dão e retiram apoios tendo em vista o que importa mesmo a uma classe de mercadores: o poder.

Mais do que os políticos o que me interessa é a população e tenho visto uma eclosão de traumas que se serve do cenário político mas se relaciona com a história de cada um, ricos ou pobres, negros ou brancos, religiosos ou ateus. Há um caldo cultural que neste momento escorre e embaça o espelho da política onde projetamos desejos conhecidos e desconhecidos.

Minha impressão é que o Brasil precisa de um divã. Ninguém mais se entende, formaram-se dois blocos completamente arredios, avessos a qualquer entendimento e isso foi fomentando pelos governantes que instrumentalizaram politicamente as diferenças até criar um surto. Se o separatismo e o preconceito de classes foram recalques que vieram à tona para serem expurgados, a supuração dos preconceitos latentes da cultura transformou-se numa ferida aberta, de difícil cura. Minha impressão é que estamos longe de resolver o trauma, ainda estamos na fase em que isso eclode à custa de muita agressividade e se existe um limbo cultural onde a raiva floresce como uma planta tóxica é a rede social.
Muitos tentam esconder a raiva num formato de paz e amor de pouca duração quando se arrependem das palavras, mas há um ódio que permeia e substitui imediatamente qualquer possibilidade de entendimento tão logo as partes sejam minimamente contrariadas, tudo converge para expressões pesadas, bordões e um glossário de ofensas. Não é preciso repetir, mas para que fique claro: coxinha, petralha, fascista, misógino, fundamentalista, sectário e outros tratamentos estão na linguagem comum.

A herança horrível destes tempos vai demorar muito para ser eliminada dando lugar a uma cultura mais afetiva. Mesmo as tentativas de fazer brincadeiras de modo a tornar as coisas mais leves logo levantam uma nuvem de acusações. Cansei de fazer essas experiências, substituindo o textão e o discurso por algo simbólico que implique em alguma leveza, cumprindo o papel do chiste na psicanálise, mas hoje a agressividade impregna o cotidiano. Nas redes tudo se transformou num jogo de dardos em que cada um quer apenas atingir seu alvo. A tragédia é criarem-se relações belicosas como as dos casais em crise que não se suportam, mas ficam juntos até dizimação, o desgaste sem volta, o extermínio mútuo.

A impressão é que as pessoas acostumaram-se às suas guerras particulares de modo que, quando isso acabar, pode sobrar o vazio onde faltou a reflexão que está muito além das pedradas. Estamos carregando para o campo político nossos recalques pessoais, o resultado é a agressividade onde deveriam germinar ideias construtivas. No fim das contas, somos todos brasileiros e, em campos opostos, queremos coisas parecidas, as forças não podem acabar num cabo de guerra. Isso só serve aos políticos e à manipulação das vontades, mas não constrói um país, é preciso tomar cuidado para não ser atraído pelo canto das sereias ou pelo malabarismo dos tubarões. O Brasil está precisando de psicanálise, sob a pena de repetir neuroticamente atitudes que atrofiam pensamentos e saídas.

celia.musilli@gmail.com

 

 

 

ARTAUD NA DANÇA

cARTAUDgrafia 1 - uma correspondência Foto3 - Wolfgang Pannek

 

A companhia paulistana Taanteatro estreou em maio um projeto ousado: cARTAUDgrafia. O título é a combinação da palavra cartografia com o nome de Antonin Artaud,  propondo um mapeamento estético de sua produção através de coreografias. Trata-se de um mergulho na vida e obra do poeta, dramaturgo e pensador francês conhecido por suas rupturas e inovações na linguagem, além das ideias que o colocam como um dos nomes mais importantes do teatro do século 20.

Na entrevista a seguir, o diretor Wolfgang Pannek fala do Projeto cARTAUDgrafia, composto  por três espetáculos encenados em 2015, através do Programa  Municipal de Fomento à Dança para São Paulo – 16ª edição. O primeiro deles estreou em 22 de maio, seguindo em temporada até o dia 31 no Espaço Cênico O Lugar, em São Paulo.

Alguns textos de Artaud escolhidos para a trilogia – Correspondência com Jacques Rivière; México: Viagem ao País dos Tauramaras e Mensagens Revolucionárias, além de Artaud, o Momo – nunca haviam sido encenados nem traduzidos integralmente no Brasil.

Pannek, alemão radicado no país desde 1994, co-diretor da Companhia Taaanteatro  juntamente com a bailarina e coreógrafa Maura Baiocchi, tem uma trajetória marcante. Entre outras coisas, dirigiu Homem Branco e Cara Vermelha, Primeiro Fausto, Esperando Godot e Máquina Hamlet Fisted, atuou como coreógrafo e ator em Os Sertões, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, é co-autor dos livros Taanteatro – teatro coreográfico de tensões, Taanteatro – rito de passagem e Taanteatro MAE Mandala de Energia Corporal.

Na entrevista, ele fala das traduções e encenações inéditas dos textos de Artaud e do desafio de converter os escritos do poeta e dramaturgo francês– considerado louco e que passou por  várias internações e sofrimentos – em espetáculos de dança. Trata-se de um trabalho que mexe com estranhamentos dentro da linguagem cênica, com conceitos revolucionários de arte, além de incluir críticas ao fenômeno das migrações que têm levado à morte, em naufrágios no Mar Mediterrâneo, pessoas que saem de países da África e do Oriente Médio em busca de melhores condições de vida. Cria-se assim uma conexão da obra de Artaud com contextos culturais da atualidade.       

   *

Não é a primeira vez que a Taanteatro realiza um espetáculo sobre a obra de Antonin Artaud. O que faz a companhia retornar mais uma vez a este autor tão instigante quanto complexo?

A primeira incursão da companhia no universo artaudiano ocorreu em 1996 quando produzimos a mostra internacional Artaud 100 Anos. Realizada no MASP, Cinemateca, Rádio USP e Teatro Sérgio Cardoso, a programação itinerante incluía filmes, fotos, leituras e três espetáculos comissionados. O Teatro Oficina estreou Para Acabar com o Juízo de Deus, A Conquista do México foi adaptada pelo coreógrafo japonês Min Tanaka e a Taanteatro Companhia apresentou Artaud – onde deus corre com olhos de uma mulher cega, espetáculo criado por Maura Baiocchi. Nosso retorno à Artaud no ano passado com a encenação de 50 desenhos para assassinar a magia foi estimulado por meus estudos da obra de Gilles Deleuze. Artaud é um intercessor decisivo de sua filosofia, uma influência importante para a concepção deleuziana da gênese do pensamentoe da subversão do poder pelo desejo esquizo. Atualmente, frente aos fluxos migratórios e conflitos interculturais de nosso tempo, a crítica artaudiana da racionalidade ocidental ganha novamente relevo.

Para o primeiro espetáculo da trilogia você escolheu textos de Artaud que nunca foram encenados e tampouco traduzidos integralmente no Brasil. Em linhas gerais, fale sobre a escolha desses textos.

O projeto cARTAUDgrafia é composto por três espetáculos independentes. Cada obra foca numa dimensão específica da produção de Artaud: o espírito, a cultura, a linguagem. O conjunto opera como um rito de passagem sobre a crise da representação no Ocidente. Uma Correspondência tem como referência principal Correspondência com Jacques Rivière (1924), troca epistolar inédita no Brasil que marca o ingresso de Artaud no panteão literário francês, sem curvar-se à normatização estética. México, a segunda parte, baseada em Viagem ao país dos Taraumaras e Mensagens Revolucionárias, mostra sua ruptura com a civilização europeia, a busca de uma cultura original e a disposição de realizar o Teatro da Crueldade no plano de seu próprio corpo. A última parte, Artaud, o Momo, traz sua saída do limbo psiquiátrico, o retorno do poeta indomado que surpreende o mundo cultural com suas obras mais explosivas. Partes de Artaud, o Momo foram traduzidas por Claudio Willer em Escritos de Antonin Artaud. A seleção que fizemos não esgota sua obra, mas inclui momentos chaves de sua trajetória.

cARTAUDgrafia 1 - uma correspondência  foto2 - Wolfgang  Pannek.jpgHá conexão entre essas obras de Artaud convertidas em espetáculos de dança?

Sim, “o problema da liberdade autêntica”. Artaud define esse problema a partir da pureza. Pureza alquímica, não moral. Sua busca de liberdade passa pela transmutação que leva da matéria bruta de nossa existência herdada e codificada para uma vida soberana da pura intensidade. Impuro é para Artaud tudo que condiciona o corpo alheio à sua vontade; predeterminações biológicas, culturais e históricas que operam como automatismos da percepção, da cognição e do comportamento. Deus é um micróbio, diz Artaud. Em outras palavras, os juízos do conhecimento, da moral e da estética desdobram seu poder não somente no plano macro, mas no interior de cada corpo. Foucault apreendeu com Artaud. Como as impurezas integram o processo constitutivo do corpo, seu expurgo corresponde a uma revolução anatômica, à criação do ‘corpo sem órgãos’. Artaud sabia que sua busca, onde condição e finalidade da liberdade se confundem, era paradoxal: “Ser livre para ser puro. E para ser livre, ser puro primeiro.”

O que mais chamou sua atenção nas cartas trocadas entre Artaud e Rivière que você traduziu especialmente para criar este primeiro espetáculo?

Correspondência com Jacques Rivière resulta de uma tentativa frustrada. Aos 27 anos, Artaud espera ver a publicação de seus poemas na Nouvelle Revue Française, revista de literatura que conta com a colaboração de autores como Paul Valery e André Gide. Rivière recusa os poemas atribuindo-lhes “falta de habilidade e unidade”, “estranhezas desconcertantes”. Artaud insiste. À recusa segue uma troca epistolar. Nela o poeta desloca o foco da discussão. O valor de sua criações e sua “existência literária” não residem em questões estéticas, mas no fato vital de terem sido arrancadas “do nada absoluto”, apesar da “erosão mental” sofrida por seu autor. Rivière se sensibiliza e, impressionado com o rigor intelectual das cartas de Artaud, propõe sua publicação. Em Correspondência Artaud descobre a carta como meio de expressão poética fulminante. Inicia também a encenação literária do mito ‘Antonin Artaud’, além de antecipar vários de seus grandes temas: a cisão entre corpo e espírito, a defesa de uma poesia performativa da intensidade, a precariedade do Eu e o caráter excepcional do ato de criação.

Foi difícil adaptar Correspondência – que é um texto epistolar – para a dança?

Do ponto de vista teatro-coreográfico, a adaptação de uma troca de cartas oferece desafios maiores do que obras mais imagéticas como o México e o Momo. O espetáculo Uma Correspondência traz um drama mental, a confrontação de dois modos de pensar a arte e a cultura. Estes modos de pensar têm correlações com nossas concepções do corpo e seu movimento. Mas eu não queria abrir mão do texto em favor de uma encenação puramente física. Sintetizei as cartas ao máximo, tentando preservar seu estilo, suas ideias principais. A dramaturgia coreográfica é dividida em duas esferas conectadas por uma membrana onde se projeta parte dos textos. A esfera aérea da racionalidade contemplativa de Rivière é branca, valorizada por movimentos olímpicos e simétricos. O espaço da intensidade artaudiana é negro, sua dança assimétrica e subterrânea.

A terceira e última cena do espetáculo traz o encontro de Artaud com vários poetas geniais  também considerados loucos, Friedrich Hölderlin, Gérard de Nerval, Lautréamont, Alfred Jarry, Charles Baudelaire e Arthur Rimbaud, entre outros. O que motivou a escolha desses nomes?

Villon, Baudelaire, Nerval, Poe, Lautréamont, Nietzsche, entre outros, são nomes frequentemente citados em conjunto por Artaud. Trata-se de afinidades eletivas, de amizades extemporâneas entre guerreiros poéticos que, segundo Artaud, compartilhavam o mesmo problema: “Eram os campos de batalha de um problema que assola o espírito humano desde as suas origens: o predomínio da carne sobre o espírito ou do espírito sobre a carne.” Artaud rejeita o rótulo da loucura. Para ele esses poetas não eram loucos, mas “gênios libertos dos costumes e do conformismo burgueses”, que morreram na tentativa de preservar sua individualidade contra todas as formas de massificação e escravidão contemporâneas.

Apresentar a obra de poetas malditos é uma forma de enfocar a loucura na arte ou também outros sentimentos como a liberdade de criação?

A maior maldição que um criador pode enfrentar é a tentativa de generalização da singularidade de sua obra ou sua redução a um sintoma patológico. São estratégias totalitárias complementares que visam a neutralização das forças transformadoras expressas em suas criações. Em Artaud, liberdade e criação são dimensões inseparáveis. Liberdade somente existe no ato da criação de si mesmo. Para ele o mundo, a vida, o corpo, o Eu, o pensamento e a arte nunca são algo dado, mas algo a ser criado. Mas este ato de criação não é um bem comum e de fácil alcance; é uma batalha árdua e permanente contra identidades, formas, essências e leis preestabelecidas. O rótulo da loucura estigmatiza, mas não explica nada.

cARTAUDgrafia 1 - uma correspondência - foto1 - Wolfgang  Pannek

No espetáculo há uma relação entre o impacto que causa a estranheza e a cura. Mas trata-se da cura de quem? Dos poetas malditos, dos loucos? Ou da sociedade que não alcança a plenitude de obras tão instigantes quanto a de Artaud e as do panteão de poetas evocados nesta montagem?

A possibilidade da cura por meio da arte está ligada ao movimento: atividade, interatividade e criatividade. Experienciar danças extravagantes de poetas malditos, livres de juízos moralizantes, pode ter um efeito liberador. Mas essas danças, além de serem uma festa da singularidade compartilhada, são também zonas de perigo. Contra o ideal contemplativo do Ocidente, Artaud defende uma estética da ativação. Para alcançar seus objetivos, seu teatro poético precisa gerar tensões, desequilíbrios, mistérios. Precisa dinamizar equilíbrios estagnados por meio de formas de expressão ousadas, impregnadas pela energia viva de suas forças motrizes. A resistência à assimetria é comum. É o medo da queda. Mas cura é um fenômeno dinâmico. Depende muito mais da capacidade de cair do que da utopia de um equilíbrio permanente. A experiência da própria atividade e criatividade potencializa e fortalece por ser um processo de autopoiesis.

Para traduzir a obra de Artaud em coreografias você utiliza uma linguagem bastante poética. O que é mais forte na obra dele, a poesia ou o questionamento incisivo dos valores que a sociedade impõe como normas de comportamento?

É caraterístico do taanteatro– ou teatro coreográfico de tensões criado por Maura Baiocchi – investir no desenvolvimento das faculdades poéticas do performer. Esse investimento a partir de cada corpo, cada experiência de vida, foge da uniformização das energias expressivas. Artaud elegeu a si mesmo como personagem principal de sua poética. E seu Eu, que encontramos sob nomes variados– Artô, Antonin Nalpas, o Crucificado, o Revelado ou Antonin Artaud – é o objeto de erosões internas e ameaças externas:  por parte da família, da igreja, da medicina, do Estado. Artaud exemplifica ao extremo a tensão entre a aguda percepção da precariedade do Eu e a necessidade de insistir em sua existência.   Krísis e a crítica são dimensões constitutivas de sua poesia que não visa mundos ficcionais, mas a gestação mágica de seu próprio corpo através do sopro, do som, da palavra e do movimento.

Sobretudo em O Teatro e Seu Duplo, Artaud faz uma relação entre a peste que assolou a Idade Média e o teatro, sendo este  último uma espécie de transbordamento de humores, um processo inflamatório, enfim, uma fonte de conflitos. Que conflitos da atualidade estão presentes neste espetáculo?                                                                                                                                                                                                                                                                

Artaud apresenta a peste como um duplo do teatro, isto é, como um fenômeno de contágio espiritual e corporal que subverte qualquer tipo de ordem e diferenciação sociais, pondo a todos, de forma indiscriminada e anárquica, em contato com as forças do caos. Muitos dos conflitos endereçados no espetáculo são antigos e podem ser resumidos no problema da codificação e domesticação do corpo pelas instituições sociais, morais e governamentais. Mas em Uma Correspondência a encenação aponta para formas novas da peste social e intercultural como a que atualmente vivenciamos frente às migrações em massa vindas da África e do Oriente Médio.  Fazemos referência a essa tragédia na primeira cena do espetáculo, comparando as embarcações que hoje naufragam no Mar Mediterrâneo à Grand Saint Antoine, navio citado por Artaud em O Teatro e a Peste, que traz a doença do Oriente para Marselhas.

Na  sua opinião, quem são os pestilentos na atualidade ou aqueles indivíduos dos quais o establishment quer se livrar?

Formações de poder estabelecem-se em todos os grupos sociais, independentemente de seu tamanho, suas condições econômicas e preferências ideológicas. A questão que se coloca não é tanto a de sua legitimidade, mas o grau de seu dinamismo, de sua abertura à transformação. Posso pertencer ao establishment de um grupo e atuar como pestilento em relação a outro. Essa constatação impede a confortável divisão do mundo entre carrascos e vítimas. Pestilento – contagioso e possivelmente letal – é aquele que, através de seus atos ou sua existência, põe em xeque os mecanismos auto-imunizantes de um determinado grupo; suas entranhas do poder, sua corrupção, suas mentiras. Nesse momento, o lugar de trágico destaque entre os pestilentos contemporâneos, cabe aos já citados centenas de milhares de migrantes que acabam mortos em alto mar ou confinados em campos de refugiados. Sua miséria evidencia nossa incapacidade, atestada por Artaud, “de compreender e tomar posse da vida”.

As obras de Artaud atraem uma faixa de público, ao  mesmo tempo que afugentam outra por sua complexidade. Como a Taanteatro Companhia lida com o desafio de atrair público para uma obra que provoca, no mínimo, um profundo estranhamento?

Artaud virou um mito cultural do século XX. Nas artes performáticas sua influência é consolidada. Há admiradores e estudiosos de sua obra nas áreas da poesia, artes plásticas, cinema, filosofia, estudos culturais e antropologia. Mas seu público não se reduz aos acadêmicos e eruditos. Nietzsche escrevia “para todos e para ninguém”, Artaud “para analfabetos”. Na periferia de São Paulo apresentamos espetáculos sobre Zaratustra e Frida Kahlo, com êxito e sem nenhuma necessidade de simplificação. Por outro lado, quem trabalha com esses autores não se pauta pelo Ibope, mas pela intensidade do encontro. Ainda assim tivemos com 50 desenhos para assassinar a magia – um trabalho muito “estranho” já no título – um público numericamente expressivo. Artaud enfatiza em O Teatro e seu Duplo a intenção de “fazer pensar” por meio do efeito da orquestração de signos materiais sobre a sensibilidade. Sensação e disposição para o novo não são o privilégio de um estrato social específico.

Depois deste primeiro espetáculo – “cARTAUDgrafia 1 – uma correspondência” – que aspectos da obra de Artaud você pretende abordar na trilogia prevista para 2015?

Se a primeira encenação explora o espaço branco da razão ocidental, a segunda parte acompanha a aventura mística de Artaud na terra vermelha e convulsiva do México. Será um trabalho inteiramente diferente do primeiro, tanto do ponto de vista do processo criativo quanto do espetáculo resultante; ritualístico e selvagem. A última parte, Artaud, o Momo focará na arte poética de fazer ouro. Mostra Artaud no auge – alquimista, xamã, poeta – capaz de navegar nas águas rasas da razão bem com nas profundezas oceânicas do inconsciente.

 

– Entrevista publicada na revista Caros Amigos em maio/2015

 

 

 

 

Imagens sonhadas

Arte : Amy Judd

Arte : Amy Judd

a flor na orelha oriental
onde não voam as abelhas
apenas a primavera
mulheres atiradas como buquês
orquídeas brancas
dentes brancos rindo à toa
até que tudo se misturou
em algo que aconteceria
quando acordei da cena cinematográfica
.
abri-me como quem brota
uma cerejeira de mentira
perfume de plástico
ocidente onde havia um Japão Imperial
porque o sol bateu na janela
no acidente cósmico da vigília
.
era uma terça-feira
ainda haveria você
falando de Baudelaire naquele dia
como quem serve no almoço
o sonho das flores do mal
(Célia Musilli)

A sensibilidade sombria

unica-zurn-first-image

Conhecia o trabalho da artista plástica alemã Única Zurn (1916/ 1970) por sua ligação com o Surrealismo. Suas obras apresentam formas pontilhadas ou fragmentadas, uma leitura pictórica de quimeras, animais fantásticos e conteúdos bizarros. A fragmentação presente em sua obra remete à sua condição de esquizofrênica, expressão que significa “partida”, “dividida” e que se caracteriza pela perda de contato com a realidade.

O que eu não sabia é que Única Zurn deixou também uma obra literária, cerca de 140 contos publicados na imprensa alemã nos anos 40, além de um livro de anagramas (Hexentexte/ Texto de Bruxas (1954), e o livro autobiográfico “O Homem-Jasmim” que ela teria escrito para Henri Michaux por quem foi apaixonada. Esse livro, publicado postumamente em Paris em 1971, tem uma tradução em português da Editora & ETC (Lisboa), mas não o encontrei nos sebos virtuais do Brasil e, se encontrasse, possivelmente custaria uma pequena fortuna, tendo em vista que alguns livros de Michaux, publicados pela mesma editora, estão cotados hj a preços que ficam entre R$ 350,00 e 500,00 em lojas de usados.

Única Zurn teve um longo relacionamento com Hans Bellmer, artista alemão conhecido por suas fotografias e uma impressionante coleção de bonecas mutiladas. Seus principais temas eram a alucinação e os aspectos subconscientes da sexualidade. É conhecida a série fotográfica que fez de Única Zurn em que ela aparece em poses sadomasoquistas, nos quais seu corpo é amarrado fortemente por cordões que marcam e distorcem as formas. Dizem que Bellmer direcionava suas pulsões sádicas para a arte e foi ele o grande protetor de Unica quando ela, em fases de alucinação, tornou-se incapaz de lidar com os marchandes. Ficaram juntos até a morte de Única, quando a artista, em 1970, suicidou-se atirando-se da janela do apartamento de Bellmer em Paris sem que ele pudesse fazer nada porque estava inválido, numa cadeira de rodas, e só pode presenciar o ato extremo.

A vida de Única, apesar de sombria, resultou em iluminações que podem ser apreciadas em sua obra pictórica, nas quais uma estética convulsionada é tb demonstração de sua enorme qualidade artística. De alguma forma, ela conseguiu, como descreve em seu livro autobiográfico “O Homem-Jasmim”, colocar-se “no centro dos acontecimentos”, ainda que muitas vezes de forma trágica. Entre outros, foi uma artista acolhida pelo Surrealismo, primeiro movimento a assumir a “obra dos loucos” como obra.

Segue um link com biografia mais completa de Única Zurn:

http://www.saude-mental.net/pdf/vol11_rev2_leituras.pdf

‘E me perdoa de ti a indiferença’

Hilda Hilst: porque ela existe

Hilda Hilst: porque ela existe

“E me perdoa de ti a indiferença…”

“Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão” (1974) é um dos livros mais bonitos de Hilda Hilst.  Um diálogo entre a escrita livre e a tradição lírica, na forma “de canção de amigo” e gênero clássico. Nele, a poeta canta a ausência do amigo sempre esquivo, ocupado com o mundo dos negócios.  Então, ela canta  e, encantada com seu  próprio canto, cria um elogio ao amor.

Conta-se que Carlos Drummond de Andrade considerava este o melhor livro de Hilda e  comentou com ela: “você não dormiu com este homem.” Talvez o poeta considerasse que a  força dos versos devia-se a essa lacuna, a essa ausência transformada num orgasmo de palavras. Acontece.

Na orelha do livro, porém, fica claro que não há nenhum  happy  ending:  “Ao fim o amado esquivo se dissolve ou se confunde com o homem morno, com o predador político, inimigo caricato da vida e da arte.” O que não deixa de ser um ato de violência que, assim mesmo, reacende a paixão. Na aflição da espera amorosa, ao contrário de Penélope, a poeta remete à desolação dos tempos, não à esperança. Mas nem por isso, os versos deixam de ser lindos. E a dedicatória que ela faz é um registro que aviva a memória para sempre, ainda que alguns amores sejam quase míticos. Hilda  dedica o livro a “AM.N. porque ele existe.”

 

X

 

Não é apenas  um vago, modulado sentimento

O que me faz cantar enormemente

A memória de nós. É mais. É como um sopro

De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso

É como se a despedida se fizesse o gozo

De saber

Que há no teu todo e no meu, um espaço

Oloroso, onde não vive o adeus

 

Não é apenas vaidade de querer

Que aos cinqüenta

Tua alma e teu corpo se enterneçam

Da graça, da justeza do poema. É mais.

E porisso perdoa todo este amor de mim.

 

E me perdoa de ti a indiferença.

 

TRANSPARÊNCIAS

dança Julie Poncet

ando tomada por coreografias
movimentos de pegar coisas no ar
tocar objetos invisíveis
a comida de um gato imaginário
um tapete lúdico
a bola deixada pelo filho que cresceu
as pantomimas da infância
as cartas que nunca me enviaram
e aparecem debaixo das portas

ando tomada por dança
num estranho aprimoramento
Nureyev condicionado à liberdade ímpar
num solo que nasce da imprevisível soma
de músculos estirados e a cabeça cheia de asas
tecidos esvoaçantes e pegadas
Isadora Duncan na areia dos sonhos
com as pernas tocadas pelo vento
ao sopro das flautas de bambu

ando tomada pela arte de construir linguagens
palavras em caligrafias transparentes
códigos de marionetes subitamente humanizadas
atores que se dão ao luxo do sentimento
dançando para si próprios
antes de dançar para os outros
como um animal em movimentos abstratos
ou as bailarinas de Degas
cujas saias engendram
fantasia a meus pés
com sapatilhas inexistentes

dei um passo no acaso
num deslize de memórias
na profusão de um balé russo que me segue
como um cão segue seu dono
eu me abaixo e levanto
no gesto de caminhar em ponta
para acordar meus planos
no espelho trincado ao som do piano mudo
num giro de 360 graus pela vida inconclusa
e meus 50 anos neste irrevogável baile de máscaras

(Célia Musilli)

O ANTIPOEMA

Arte: Max Walter Svanberg

Arte: Max Walter Svanberg

ando pensando na convergência
da falta de modos e das identidades
cardumes e bandos
colmeias e formigueiros
alcateias e humanidades
uma anarquia quando abro a boca
apenas com a certeza de ser espécie
sem nomear o verbo

a desinvenção é uma condição do acaso
do caos
do anonimato
do desconhecido
do coletivo
do misterioso
que não faz parte da convenção do indivíduo
nem da convenção da palavra

ando sujeito que pensa no mundo das lagartixas
na solidão que sobe paredes
essas coisas são próprias do desassossego
da literatura que nasce em nuvens
no fluido do inominável
no indizível sexual de um texto
que sabe Lacan pela metade

com deficiência para ser espetáculo
a criação me toma apenas por melancolia
fundindo a língua na incabível semântica
do antipoema

(Célia Musilli)